Isto é Excelência em Gestão?
Três horas mofando em algum canto da enfermagem, como se fosse um pacote perdido da Amazon, enquanto o paciente de 92 anos com dores intensas no peito continua gemendo de dor numa cama quebrada sem qualquer comodidade. Se isso não for excelência, então pelo menos é coerência: uma gestão esquecível que esquece até dos exames.
Por Luiz Lunardelli
Publicado em 25/03/2025 13:18
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Por Luiz Lunardelli

Se o conceito de “excelência em gestão” for medido pela capacidade de vender uma ilusão reluzente enquanto os bastidores ardem em caos, então o Instituto Ibhases merece, com louvor, o troféu “Mágica da Saúde Pública 2025”. Afinal, transformar uma UPA com obras inacabadas, equipamentos sucateados, filas de espera que dariam inveja ao INSS e erros grotescos de atendimento em um modelo de “sucesso” é um feito digno de Las Vegas – ou, melhor dizendo, de um roteiro de comédia de humor negro.

Vamos aos fatos: o Instituto Ibhases está com as garras afiadas para assumir o Hospital Regional de Biguaçu, de olho na nova concessão que se aproxima. E como quem quer vender um carro velho disfarçado de nave espacial, tem espalhado pelas redações da imprensa local uma série de matérias pagas, proclamando com pompa sua suposta “excelência em gestão”. Isso mesmo: matérias pagas, porque jornalismo investigativo de verdade talvez fosse sincero demais para o marketing da instituição.

O problema é que propaganda não cura infarto. E foi exatamente esse tipo de situação que ocorreu na já combalida UPA de Biguaçu, sob responsabilidade do “excelente” Ibhases: um idoso de 92 anos, com dores no peito e suspeita de problema cardíaco, deu entrada na unidade às 7h da manhã do dia 25 de março. Atendido só uma hora depois — o que já beira a negligência —, teve exames solicitados e material de urina coletado às 8h30. E então... o grande plot twist: às 11h30, descobre-se que o material coletado simplesmente foi esquecido. Sim, esquecido. Três horas mofando em algum canto da enfermagem, como se fosse um pacote perdido da Amazon, enquanto o paciente de 92 anos com dores intensas no peito continua gemendo de dor numa cama quebrada sem qualquer comodidade, numa sala onde um aparelho de ar condicionado repousa na parede entre teias de aranha (quebrado),  negando-se a funcionar, apesar da temperatura cravada em 32 graus. Se isso não for excelência, então pelo menos é coerência: uma gestão esquecível que esquece até dos exames como vai se lembrar de consertar o ar condicionado?

O mais cruel é que essa tragicomédia não é caso isolado. A população de Biguaçu, São José e Florianópolis – onde o Ibhases também atua – convive com uma roleta-russa assistencial: às vezes dá certo, mas o mais provável é que falte médico, falte remédio ou falte profissional com preparo mínimo para não confundir um exame laboratorial com um souvenir de corredor. A rotatividade de funcionários é tão intensa que talvez nem o próprio RH saiba quem está de plantão. E o cenário físico? Obras eternas, poeira digna de deserto e aparelhos que, se fossem humanos, já teriam aposentadoria por tempo de serviço.

Enquanto isso, o Ibhases segue investindo naquilo que realmente sabe fazer: propaganda. Vende excelência como se vendesse sabão em pó – com embalagens vistosas, cheias de promessas, mas que na prática só espalham espuma. É o marketing da ilusão, onde a maquiagem cobre a ferida, mas não estanca o sangue.

Fica aqui um alerta ácido, porém necessário, às autoridades e à sociedade civil: gestão de saúde não é lugar para amadores de palco ou contadores de histórias bem editadas. O futuro do Hospital Regional de Biguaçu deve ser tratado com seriedade, competência e, acima de tudo, respeito pela vida das pessoas.

Porque uma instituição que esquece exames de um idoso com dor no peito, pode muito bem esquecer o que é dignidade.

 

 

 

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