Há nomes que nascem do chão, da água e da mata. Outros nascem da história, dos documentos, das decisões que moldaram um estado inteiro. O problema começa quando alguém resolve misturar tudo como se fosse a mesma coisa. Guaporanga, em Biguaçu, é um belo nome. São Miguel também. O erro não está nos nomes. Está em colocá-los no mesmo endereço.
Guaporanga vem do tupi-guarani. Quer dizer algo como lugar bonito, paisagem exuberante, descrição perfeita para regiões de mata fechada, serras, rios e cachoeiras. Em Biguaçu, esse nome conversa muito bem com Tijuquinhas, o interior rural, as trilhas e as águas correndo livres. Aí, o paletó cai como uma luva.
O problema é quando esse mesmo paletó é colocado à força em São Miguel da Terra Firme. Aí aperta, sobra, incomoda e não conta história nenhuma.
São Miguel não surgiu da contemplação da paisagem. Surgiu da organização política do território, do período colonial, da formação administrativa de Santa Catarina. São Miguel da Terra Firme já foi capital do estado. Está em mapas antigos, em registros oficiais, na memória de quem sabe que identidade não se improvisa.
Colocar São Miguel sob o rótulo de Guaporanga é como pegar uma biblioteca centenária e chamar de “depósito de papel”. Funciona na planilha, mas falha feio na memória.
Nada contra Guaporanga, que fique bem claro. Guaporanga é bonita, é verde, é forte, é água correndo em pedra. Mas Guaporanga é Guaporanga, ligada ao interior, à serra, às cachoeiras. São Miguel é São Miguel, com outra lógica, outra história, outro papel na formação do estado. Misturar tudo vira praticidade administrativa com preguiça histórica.
E nome não é detalhe. Nome define pertencimento, orienta políticas públicas, constrói identidade coletiva. Quando São Miguel vira apenas um pedaço genérico de uma região geográfica que não o representa, vira figurante da própria história. É o famoso “tanto faz”, que nunca fez.
Talvez esteja na hora de a comunidade de São Miguel fazer o que sempre soube fazer: se posicionar. Não com gritaria, mas com argumento. Não com confronto, mas com memória. Um movimento organizado junto aos vereadores, dizendo algo simples e impossível de refutar: Guaporanga faz sentido onde há serra, mata e cachoeira.
São Miguel faz sentido onde há história.
A proposta não apaga ninguém do mapa. Ao contrário, organiza o mapa. Guaporanga restrita à região que realmente representa. São Miguel recuperando oficialmente o nome que nunca deixou de existir na boca do povo, nos livros e na identidade local.
Porque, sejamos honestos: ninguém diz com orgulho “sou de Guaporanga” quando mora em São Miguel. Diz-se “sou de São Miguel”. O resto é carimbo.
Alguns dirão que há problemas maiores. Sempre há. Mas comunidades também são feitas de símbolos, e símbolos mal colocados corroem o pertencimento aos poucos, como água pingando em pedra errada.
São Miguel não pede privilégio. Pede coerência. Pede que a história seja tratada com o mínimo de respeito. Pede que um nome que já foi capital não seja reduzido a uma generalização geográfica que não o representa.
No fim, é simples e até elegante: Guaporanga é belo. São Miguel é histórico.
Cada nome no seu lugar. A história agradece. A identidade também.