Nunca lamentei tanto uma ida banal à farmácia como a de hoje pela manhã. Daquelas saídas rápidas, automáticas, sem drama. Ao voltar, a notícia veio com a leveza cruel das coincidências mal cronometradas: “Que pena… o teu amigo José Elias Rodrigues acabou de sair”. Veio sem aviso, como se fazia antes. Veio para te ver e te visitar, não para resolver nada. Deixou presença em forma de ausência: o seu livro O Pescador e o Fiscal, um copo decorado para cerveja e um espumante chique, desses que não pedem ocasião.
Fiquei dividido entre a alegria pela lembrança e a tristeza por não ter estado ali, sentado, ouvindo, rindo, compartilhando o tempo que não se agenda. E foi nesse pequeno desencontro que percebi o quanto as coisas mudaram. Não apenas os hábitos, mas o jeito de ser amigo.
Houve um tempo em que amizade tinha endereço físico. Amigo sabia onde morava amigo. Sabia o caminho, o portão que rangia, o cachorro que latia só para estranhos e o café que nunca faltava. Hoje, amizade tem login, senha e um visto prévio chamado “me avisa antes”.
Visita inesperada virou atentado à privacidade. Tocar a campainha sem agendamento é quase uma grosseria institucionalizada. O sujeito abre a porta com cara de quem encontrou um fiscal da Receita Federal, não um amigo de longa data. A frase receptiva não é mais “entra, fica”, mas “aconteceu alguma coisa?”.
Os amigos de hoje se amam profundamente, desde que à distância. Trocam corações, figurinhas animadas, parabéns automáticos e mensagens de “vamos marcar”. Esse “vamos marcar”, aliás, é o novo “adeus”. Uma frase educada que significa: não vai acontecer nunca, mas seguimos amigos no sentido metafísico da palavra.
O sofá da sala perdeu relevância social. Não há mais aquele sentar sem cerimônia, aquele silêncio confortável, aquele papo que não precisava render nada. Tudo virou produtivo, cronometrado, funcional. Amizade agora tem prazo, duração média e horário comercial. Depois das 21h, só em caso de extrema necessidade ou falecimento confirmado.
O curioso é que nunca se falou tanto em saúde mental, solidão, ansiedade e carência afetiva. Tudo isso enquanto nos escondemos atrás de telas luminosas, evitando o maior risco emocional de todos: a presença real do outro. Porque amigo presente dá trabalho. Ocupa espaço. Quer conversa. Quer tempo. E tempo virou artigo de luxo guardado a sete notificações de distância.
Antigamente, amigo entrava sem bater. Hoje, se entrar, precisa mandar mensagem avisando que chegou, mesmo estando no sofá. É o progresso. A evolução das relações humanas rumo a uma convivência higienizada, sem suor, sem cheiro de café e sem abraço apertado que dura dois segundos a mais do que o socialmente aceitável.
Talvez estejamos todos muito ocupados cuidando das nossas vidas digitais para viver as reais. Ou talvez tenhamos desaprendido o simples prazer de sentar, olhar no olho e não fazer absolutamente nada além de estar junto.
Enquanto isso, a campainha segue muda. O café esfria sozinho. E a amizade, coitada, vai sendo reduzida a um pacote de dados, cada vez mais leve, cada vez mais distante, cada vez mais… conveniente. Conveniente, sim. Humana, nem tanto.
Zé Elias Rodrigues, fica aqui meu pedido sincero de desculpas por não estar em casa naquele momento tão raro e precioso. Obrigado pela lembrança, pelos presentes, pelo livro, pelo copo, pelo espumante e, sobretudo, pela coragem de tentar ressuscitar um hábito fraterno que anda em coma induzido. Você não trouxe apenas objetos: deixou um recado silencioso sobre amizade, presença e afeto.
E fique avisado, sem data, sem aviso e sem agenda compartilhada: quando você menos esperar, serei eu a bater na sua porta. Para retribuir a visita, o gesto e a memória de um tempo em que amigos simplesmente chegavam.