A Academia respirou fundo, sorriu e virou a página (por Luiz Lunardelli)
A Academia respirou fundo, sorriu e virou a página A noite de ontem (18/12/2025) entrou para os anais da Academia de Letras de Biguaçu não apenas como um ato administrativo de posse, mas como um daqueles raros momentos em que a instituição parece ter aberto as janelas, deixado o ar circular e, de quebra, espanado alguns fantasmas antigos que insistiam em rondar os corredores da Casa. Foi empossada a nova diretoria, tendo à frente o acadêmico William Wollinger Brenuvida, e desde os primeiros instantes ficou claro que não se tratava apenas de uma troca de nomes na placa da porta. O clima era outro. Menos sisudo, menos tenso, menos “olhos atravessados por cima dos óculos”. A palavra da noite foi harmonia. A entrelinha, otimismo. E o subtexto, esse sim, foi cristalino: os tempos de ranços autoritários ficaram para trás, arquivados em alguma prateleira empoeirada da história. A sessão transcorreu com serenidade e bom humor discreto, daquele que não vira chacota, mas arranca sorrisos cúmplices. A ampla presença feminina deu o tom de pluralidade e sensibilidade, com poetas, escritoras e acadêmicas ocupando seus espaços com brilho próprio, sem pedir licença a ninguém, como deve ser. Houve poesia no ar, mas também pragmatismo no discurso. O novo presidente, em sua fala, fez algo raro e precioso: agradeceu. Agradeceu muito. Agradeceu bem. Agradeceu com nome, sobrenome e contexto. Saudou os presentes, reverenciou o ex-presidente Helio Sebastião Cabral Filho pela passagem honrada do bastão, reconheceu esforços quase épicos de confrades que desafiaram agenda, saúde e logística para estarem ali, valorizou as novas acadêmicas empossadas e fez questão de lembrar as fundadoras e os que já seguiram para a eternidade literária. Tudo isso sem pompa excessiva, sem discurso quilométrico e, principalmente, sem aquela tentação tão comum de transformar a tribuna em palco de vaidades. O tom foi fraterno, institucional e humano. Uma fala que não prometeu milagres, mas compromisso. Não anunciou revoluções, mas trabalho. E isso, convenhamos, é muito mais sério. A presença de cerca de cinquenta pessoas, representantes do poder público, de academias coirmãs e de instituições históricas e culturais do Estado, reforçou a sensação de que a ALB voltou a dialogar com o mundo real, aquele que existe fora das atas e dos grupos de WhatsApp. O que se viu, portanto, foi uma Academia que decidiu amadurecer. Que entendeu que literatura não combina com trincheiras internas, nem com autoritarismo travestido de zelo institucional. Combina, sim, com diálogo, diversidade, memória, respeito e, por que não, uma boa dose de leveza. Vislumbramos novos tempos. Tempos promissores. Tempos em que a Academia de Letras de Biguaçu pode, enfim, renascer para dias gloriosos, não por saudosismo, mas por merecimento. Aos que estiveram presentes, aos que colaboram nos bastidores e aos que acreditam na força da palavra como instrumento de construção coletiva, fica o nosso cumprimento. A ALB segue viva. E, ao que tudo indica, com a caneta novamente cheia de tinta.
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